Altemar Pontes, escritor pernambucano, revisita na série “Primeiros escritos” a infância, a solidão e o nascimento da palavra como abrigo e resistência.
Meu mergulho na literatura nasceu da solidão — e da urgência de me inventar abrigo.
Aprendi a ler cedo; era uma das poucas diversões possíveis a quem caía tão fácil quanto respirava. Ainda menino, escrevia cartas para mim mesmo, endereçadas a amigos que nunca existiram, mas que, de algum modo, sempre me ouviam. Eram confidentes silenciosos, moldados pela carência e pelo desejo de partilha. A eles confiava todos os medos que me visitavam, as perguntas que o mundo não respondia e as pequenas vitórias que cabiam num caderno de capa azul. E, quando o silêncio pesava demais, eu mesmo respondia — fingindo outra caligrafia, outra alma. Logo depois as escondia. Encontrar essas cartas-resposta era um acontecimento.
Aquelas palavras me salvaram — não da dor, mas do silêncio. Não eram apenas brincadeiras daquele menino entre cinco e seis anos; eram tentativas de permanecer inteiro num corpo que, cedo demais, me apresentou ao limite. A poliomielite chegou ao nosso sítio como um vendaval sem aviso. Antes de completar um ano, já me havia tomado o controle do braço direito e a liberdade dos passos. Mais de vinte foram acometidos, pouco menos de cinco sobreviveram.
O chão que antes me sustentava tornou-se território de batalha. Aprendi, desde cedo, que viver é também uma forma de teimar.
Havia planos. Pequenos, silenciosos, quase secretos. Planos para o dia em que eu conseguiria levantar o braço inerte e pentear o cabelo com a mão direita — e todos, todos ficariam felizes e orgulhosos com aquela conquista. Na minha cabeça, seria uma celebração. A professora sorriria com os olhos, eu finalmente teria amigos, e eles bateriam palmas. Eu, enfim, faria parte do time. Não seria mais aquele que não recebia visitas, que tinha um horário específico de recreio, diferente dos outros. Não por maldade — minha professora apenas temia que eu me machucasse. Afinal, a brincadeira favorita dos outros era a de me empurrar para o lado esquerdo e me ver cair para o direito. Tentar levantar e não conseguir — essa era a diversão mais comum.
Ainda assim, eu acordava cedo, me arrumava e ia pra escola. Um dia ia ser diferente.
Eu queria ser aceito. Queria estar entre os que corriam, riam alto, dividiam o lanche no recreio. Essa era minha expectativa: pertencer. No entanto, havia limites para o suportável. E, tantas vezes, quando o peso do não-pertencimento se tornava demais, eu fugia da escola.
Fugia em busca de algo que ainda não sei nomear. Talvez fosse a sonhada normalidade — essa palavra que, para mim, sempre teve gosto de utopia. Um lugar onde eu pudesse ser só menino, sem ressalvas, sem exceções. Onde o corpo não fosse obstáculo às vontades.
No olhar dos vizinhos, havia medo. O medo do que não se compreende — esse bicho invisível que afasta, segrega e silencia. Era o medo de que eu viesse a transmitir a doença, de contaminar os filhos deles. Quando finalmente entendi isso, nasceu em mim outra coisa: uma espécie de fúria serena. Eu não queria piedade, queria permanência. E foi nas palavras que encontrei o jeito de permanecer — onde quer que fosse.
Muito porque, onde faltava músculo, havia imaginação. Foi nesse espaço, entre limite e invenção, que nasceu o abrigo.
Cada texto que escrevi desde então foi uma tentativa de reerguer o que o corpo não alcançava. A escrita tornou-se o lugar onde pude correr, tocar, sonhar. O território onde pude ser inteiro.
Talvez por isso escrever nunca tenha sido, para mim, um ato de escolha — mas de sobrevivência.
Esses primeiros textos — ainda trêmulos, ainda inacabados — foram a semente de tudo o que viria depois. Neles aprendi que a palavra tem corpo, que o silêncio tem voz, e que, às vezes, o que falta em movimento sobra em imaginação.
Escrever foi — e ainda é — a forma que encontrei de caminhar de mãos dadas com os outros.
Com a mão direita, é claro.

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